Marcas culturais da modernidade

Entender as concepções de cultura na modernidade é muito importante para uma análise de como a humanidade atualmente está deixando marcas de sua identidade.

Bauman (2001) apresenta a questão ser líquido ou ser sólido, ressaltando que os líquidos não mantêm a sua forma, mas com facilidade se adaptam as circunstâncias. Nos líquidos, o tempo é o que importa, não fixam o espaço, pois a mobilidade remete aos fluídos a ideia de leveza; “não são facilmente contidos – contornam certos obstáculos, dissolvem outros e invadem ou inundam seu caminho”, (BAUMAN, 2001, p.8). Enquanto os sólidos permanecem intactos, diminuem a consideração ao tempo, têm dimensões espaciais claras, passando por um derretimento, no sentido de mudanças nas percepções dos sistemas de poder.

Na modernidade líquida, as escolhas individuais estão entrelaçadas aos projetos coletivos,

hoje, os padrões e configurações não são mais “dados”, e menos ainda “auto-evidentes”; eles são muitos, chocando-se entre si e contradizendo-se em seus comandos conflitantes, de tal forma que todos e cada um foram desprovidos de boa parte de seus poderes de coercitivamente compelir e restringir. E eles mudaram de natureza e foram reclassificados de acordo: como itens no inventário das tarefas individuais. (BAUMAN, 2001, p. 14).

Analisando esta relação de padrões e configurações, com poderes que se contradizem e conflitam entre si, Bauman (2001, p. 18) também ressalta que, “o fim do Panóptico é o arauto do fim da era do engajamento mútuo”, de maneira que ocorre uma alteração das formas de poder e de convívio social. E, o autor questiona: o que é feito do ser humano, inserido nesta nova sociedade?

No atual modelo de sociedade existe falta de segurança, pessoas com medo, falta de proteção, muita preocupação. Contudo, apresentando o sonho de uma comunidade feita sob medida para os indivíduos, Bauman (2001) descreve uma cidade “diferente”, onde o sentido de comunidade deixa de ser utopia, um lugar com melhores regras de convívio e melhores vizinhos. A ideia de uma comunidade também é descrita por Ortiz (2007) como um local onde vínculos pessoais prevalecem e a rememorizacao reforça a vivência compartilhada por todos.

Hoje, a cidade torna-se um local de encontro com os estranhos e, de “não falar com estranhos”, voltando ao tempo de Colombo, descrito por Todorov (2003) quando este não falava com os índios. Este encontro com estranhos (que podem até morar ao lado da própria casa) é um evento sem passado e, possivelmente, sem futuro. “No momento do encontro não há espaço para tentativa e erro, nem aprendizado a partir dos erros ou expectativas de outra oportunidade”. (BAUMAN, 2001, p. 111).

Como ilustração, remete-se ao quadro de Tarsila do Amaral (figura 2) que representa a variedade racial das pessoas que trabalhavam nas fábricas, que começavam a surgir no Brasil, fazendo referência à migração de diferentes locais do país e do mundo para as grandes cidades (São Paulo e Rio de Janeiro, principalmente). São trabalhadores migrantes, estranhos entre si, rostos sobrepostos que remetem à massificação do trabalho e às condições de vidas nas cidades, expressão de tristeza, indiferença, cansaço, representando a falta de perspectivas que predominava no contexto.

O quadro é uma expressão do crescimento capitalista no Brasil, da industrialização, da consolidação do capitalismo industrial; vale ressaltar também a relação de poder, demonstrada pela pirâmide social.

Figura 2 – Operários, quadro de Tarsila do Amaral. (1931) Fonte: http://museuvirtualsemanaartemoderna.arteblog.com.br/9604/OPERARIOS-TARSILA-DO-AMARAL/

A cidade é um local de consumir e ser “consumido”. Como se diluíram as fronteiras espaciais e temporais, Bauman (2001) traz a lição da onipotência e onipresença e, neste sentido, somente a experiência do momento presente é válida, pois também se esvaziam as relações humanas. As pessoas vivem em espaços públicos que, por momentos, estão repletos de outras pessoas e, no momento seguinte transformam-se em um grande espaço vazio. Um exemplo muito simples é a chegada de um metrô: vários pedestres apressados invadem as saídas e ruas próximas, e logo após o local fica vazio, até o próximo metrô chegar.

Bauman (2001, p.120) relata que

os não-lugares não requerem domínio da sofisticada e difícil arte da civilidade, uma vez que reduzem o comportamento em público a preceitos simples e fáceis de aprender. Por causa dessa simplificação, também não são escolas de civilidade. E, como hoje “ocupam tanto espaço”, como colonizam fatias cada vez maiores do espaço público e as reformulam à sua semelhança, as ocasiões de aprendizado são cada vez mais escassas e ocorrem a intervalos cada vez maiores.

Afinal, a ansiedade parece “tomar conta” do mundo, as pessoas vivem numa constante pressão pela instantaneidade.

Referências

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida.Trad. Plínio Denztein. Rio de Janeiro, RJ: Zahar, 2001.

ORTIZ, Renato. Mundialização e cultura. São Paulo: Brasiliense, 2007.

TODOROV, Tzvetan. A Conquista da América: a questão do outro. 2. ed. São Paulo, SP: Martins Fontes, 1999.

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