A experiência da memória e a passagem do tempo

“O tempo revela uma nova e até então desconhecida forma de eternidade a quem se aprofunda em seu fluxo”, (BENJAMIN, 1994, p. 45). Esta eternidade relatada por Proust refere-se ao tempo entrecruzado, um modo de textura que envolve múltiplos sentidos e  percorre as lembranças dos indivíduos.

Atitudes simples do dia-a-dia quando conectados com experiências ligadas aos sentidos: tato, barulho, degustação, cheiro e cores, auxiliam a perceber a condição indispensável do reconhecimento ligadas a memória involuntária, diante da experiência e de elementos do passado coletivo e individual.

As imagens escolhidas para esta análise sobre memória e tempo, pertencem ao filme “O Preço do Amanhã”[1] que apresenta uma reflexão sobre os valores dados a utilização do tempo. A figura 1 ilustra a personagem principal Sylvia Weis em uma festa com sua mãe e sua avó.

Figura 1 – Cena do Filme “O Preço do Amanhã”: Sylvia Weis, sua mãe e sua avó, (FOX, 2011).

A imagem das três mulheres confunde o espectador, quem é a filha, a mãe e a avó? No filme as pessoas param de envelhecer aos 25 anos, permanecendo com esta aparência para sempre, o que faz todos fisicamente parecer ter a mesma idade.

Esta imagem remete a citação de Benjamin (1994) que relativiza a duração do tempo e a chama de “reverso continuum da recordação”, no qual acontecem às intermitências ou intervalos, e onde o tempo é relativo, na medida em que pode ser lido a partir da rememoração particular. Seria lícito dizer que todas as vidas, obras e ações importantes nada mais são que o desdobramento imperturbável da hora mais banal e mais efêmera, mais sentimental e mais frágil, da vida do seu autor? Quando Proust descreve, numa passagem célebre, essa hora supremamente significativa, em sua própria vida, ele o faz de tal maneira que cada um de nós reencontra essa hora em sua própria existência. (BENJAMIN, 1994, p. 38)

Nesta cena, o pai de Sylvia comenta com o personagem Will Salas: “Tempos confusos, ela é minha mãe, minha irmã ou minha filha? Você espera que ela não seja minha mulher. Tudo já foi tão mais simples, foi o que me disseram” (FOX, 2011). Como eles sempre viveram neste espaço/tempo no qual, pelo relato do filme, todas as pessoas foram geneticamente alteradas para pararem de envelhecer aos 25 anos, o pai não sabe se realmente antes as pessoas envelheciam com o passar dos anos. Não existe nenhuma memória, nenhum registro fotográfico com pessoas que envelheceram, possuem rugas, marcas de expressão, cabelos brancos.

Não se pode verificar, apenas visualmente, se o casal é de pai e filha, esposo e esposa ou avô e bisneto. Contudo, alguns personagens apresentam atitudes típicas de personagens de idade muito superior os 25 anos. O contraste entre atitude e aparência é grande. As pessoas podem viver para sempre, sem envelhecer, dependendo do tempo que elas possuem em marcador digital impresso na pele do próprio braço, conforme mostra a figura 2.

Figura 2 – Cena do Filme “O Preço do Amanhã”: relógio do braço de Will, (FOX, 2011).

Assim como o pai de Sylvia fala da falta de certeza sobre o passado, nesta cena inicial do filme, na medida em que os segundos diminuem, o personagem Will comenta

Eu não tenho tempo. Não tenho tempo para me preocupar como isto aconteceu. É o que é. Fomos desenvolvidos geneticamente para parar de envelhecer aos 25 anos, só que depois nós vivemos só mais um ano, a não ser que consigamos mais tempo. O tempo, é a moeda agora. Nós o ganhamos e o gastamos. Os ricos podem viver para sempre e, o resto de nós só quer acordar com mais tempo na mão do que as horas do dia, (FOX, 2011).

Will também parece não se preocupar com os acontecimentos passados, antes de todos pararem de envelhecer, ele acredita nos relatos atuais. A imagem e a narrativa são complementares, pois as percepções da realidade e do presente, as ressonâncias das memórias individuais e memórias coletivas são beneficiadas pelos testemunhos, formando uma rede. Conforme Abreu (2009, p. 87) “Proust deixa como legado o tempo dos acontecimentos que não se encerram na esfera do vivido, uma vez que ele se deixa levar por acontecimentos lembrados, descobertos, e esses formam uma rede sem limites”.

Enfim, nas duas imagens a memória é sempre retomada das sensações causadas pelas cenas cotidianas da vida social dos personagens e seus entrecruzamentos, podem descrever as rememorações da inserção do saber (conscientemente ou não), a ligação com o tempo, a legitimação de suas experiências.

Referências:

ABREU, Elane; VELASCO, Nina. De 1965 para cá: contando o tempo de Opalka na pintura e na fotografia. Discursos fotográficos, Londrina, v.5, n.6, p.77-98, jan./jun. 2009.

BENJAMIN, Walter. A imagem de Proust. In: _____. Magia e técnica, arte e política (Obras escolhidas I). São Paulo: Brasiliense, 1994, p. 36-49.


[1] Sinopse: Em um futuro, a ciência descobriu um processo que interrompe o envelhecimento. As pessoas param de envelhecer aos 25 anos, quando inicia o relógio que cada um traz no seu pulso e, que indica que esta pessoa tem somente mais um ano de vida, a não ser que tenha dinheiro para pagar pelo tempo extra. Título original: In Time. Estreia Brasil: 4 de Novembro de 2011. Direção: Andrew Niccol. (sinopse adaptada do site IMBd, 2014).

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