Tempos Narrados

A partir das leituras de Rocha e Eckert (2013) e da análise do documentário “Cidade Sitiada” busca-se refletir sobre tempos narrados e experiências temporais. Sob a ótica da etnografia da duração, as narrativas de espaços e do tempo apresentadas no documentário, possibilitam reforçar ao espectador como os rastros da memória dos personagens/habitantes em seus cotidianos possibilitam re-pensar o tema da memória e dos fenômenos sociais e culturais.

No capítulo analisado as autoras descrevem como seguiram as etapas e processos da tríplice mimese, proposta por Paul Ricoeur, na realização e produção do documentário. O primeiro tópico elas intitulam: Introdução ou “Prefiguração”, que corresponde a mimese I, no qual relatam como escolheram o tema, apresentam alguns dados morfológicos da cidade de Porto Alegre, justificando assim a escolha. Explicam os recortes de etnia, classe, gênero que serviram de base para a construção e escolha dos personagens. E, também comentam que algumas ideias iniciais foram substituídas.

Para assinalar a narrativa do tempo, as autoras utilizam recortes das falas e das imagens de duas velhas senhoras. “A intenção era que estas narradoras ocupassem o lugar do ‘coro’ nas tragédias gregas, comentando, a distância, as ações, os sentimentos e os pensamentos dos personagens em seus dramas e interpretações no fluxo do tempo vivido”, (ROCHA E ECKERT, 2013, p. 146). E, acrescentam reportagens impressas e televisas sobre insegurança, vulnerabilidade e da cultura do medo.

Enfim, na mimese I descreve-se as práticas que precedem a tessitura da intriga, desta forma articulando as estruturas do campo de ação, os recursos simbólicos, e os traços temporais. Por que as histórias destes personagens merecem ser narrados?

Na sequência, Rocha e Eckert (2013) descrevem a mimese II, configuração. Nesta etapa são descritos os trabalhos de campo, a etnografia visual e sonora.

Entrevistas realizadas nas residências de alguns moradores se consolidavam nas observações de situações vividas no cotidiano urbano portoalegrense por seus moradores nos mais diversos bairros. Esta prática mapeava uma pluralidade e heterogeneidade de experiências do viver urbano entre os seus habitantes, a começar pelo sentimento de segurança ou insegurança em suas trajetórias, (ROCHA E ECKERT, 2013, p. 152).

Descreve-se os dispositivos utilizados, cronogramas, financiamentos, as intrigas e trajetórias narradas, no qual primeiramente são apresentados os dois outros personagens (Marilda e Augusto) e, posteriormente apresentam extratos do roteiro de edição que compõe a arqueologia da forma e a arqueologia da fala, com suas estruturas da intriga, narrativas, os personagens, ações e intenções.

Desta forma, na mimese II são relatadas a tessitura da intriga, com transformação dos acontecimentos individuais em uma história.

Por fim, as autoras delineiam a mimese III, re-configuração ou a circulação de ideias. São apresentados outros extratos do roteiro de edição e, articulados alguns fatos vividos e narrados pelos “seus” personagens com o mundo, como por exemplo, os inúmeros personagens que definem a cidade moderna conforme os autores.

“O documentário, por fim, é reconfiguração pela ação no mundo como obra aberta para o jogo de reinterpretações”, (ROCHA E ECKERT, 2013, p. 182). A narratividade do tempo nestes tópicos finais relaciona a vida, a não-vida e as crises no cotidiano das cidades, de fato, um verdadeiro jogo da memória das experiências.

Referências

ROCHA, Ana Luiza Carvalho e ECKERT, Cornelia. Cidade sitiada, o medo como intriga. In: ______. Antropologia da e na cidade. Porto Alegre, Marcavisual, 2013.

Documentário: A cidade sitiada: seus fantasmas e seus medos. 2000. Produção: Banco de Imagens e Efeitos Visuais. Duração: 24 Min. Direção: Ana Luiza Carvalho da Rocha e Cornelia Eckert. Disponível em: http://www.ufrgs.br/biev/grupos-de-trabalho/gt-video-formas-sociabilidade.php

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