Smartphones e free Wifi Zone: experiências de mobilidade e hiperconectividade

O consumo é interdisciplinar e capaz de aproximar sujeitos, socializar estilos de vida, comportamentos, promover inclusão e exclusão social. Campbell (2006, p. 64) destaca que “é justificável afirmar não só que vivemos numa sociedade de consumo, ou somos socializados numa cultura de consumo, mas que a nossa, num sentido bem fundamental, é uma civilização de consumo”. Ou seja, para o autor o consumo conecta os elementos principais da cultura e da sociedade.

Sendo que, as práticas de cultura de consumo estão cada vez mais interligadas ao crescente número de smartphones. No mundo a quantidade de celulares atingiu 97,8 acessos por cem habitantes em 2015, com um total de 7,2 bilhões de aparelhos (TELECO, 2017) que representa praticamente um acesso para cada indivíduo[1]. O consumo de telefones celulares teve um crescimento de 227% nos últimos 10 anos (2005 a 2015). Segundo a GSMA (2017) estima-se que em 2020 tenhamos 9,7 bilhões de aparelhos com cartão SIM[2], com 112% de penetração mundial.

Sob o ponto de vista da tecnologia Castells (2005, p. 17) propõe que “nós sabemos que a tecnologia não determina a sociedade: é a sociedade. A sociedade é que dá forma à tecnologia de acordo com as necessidades, valores e interesses das pessoas que utilizam as tecnologias”. E, nesse contexto, pode-se perceber que a velocidade da mudança na tecnologia, tem impulsionado transformações nas experiências de consumo dos indivíduos e das cidades, que tendem a ressignificar relacionamentos, formas de conexões e mobilidades.

Assim, o recorte proposto neste artigo está limitado, sobretudo, nas ações de “Free WiFi Zone”, ou seja, ações desenvolvidas por algumas marcas estruturando espaços com conexão Wi-Fi gratuita e tomadas para carregar smartphones. Para tanto, este estudo tem como objetivo problematizar as relações que se estabelecem entre o consumo do smartphone, a hiperconectividade e a mobilidade a partir de ações de “Free WiFi Zone”. A fim de responder a questão: como as ações de “Free WiFi Zone” estão interligadas ao processo de hiperconectividade e mobilidade contemporânea?

Neste artigo utilizou-se a pesquisa descritiva, qualitativa, dividida em dois procedimentos: bibliográfica e documental (PRODANOV; FREITAS, 2009). A pesquisa bibliográfica busca discutir questões sobre o consumo do smartphone e, conta com os autores Canclini (2010), Castells (2005), Jenkins (2009), Lemos (2003), Rocha e Pereira (2009), Silveira (2002), Sorj (2003), Van Dijck (2013), entre outros.

A pesquisa documental contou com análise das ações mercadológicas veiculadas no site Adnews, no período de janeiro de 2015 a agosto de 2017, que descrevem experiências de consumo do smartphone[3]. Foram encontradas 479 menções do tema “smartphone”. Após este levantamento, foram organizadas fichas para que fosse possível uma primeira aproximação com o material, que oportunizou o mapeamento e definição das reportagens utilizadas como recorte para este estudo.

Por fim, optou-se pela análise de conteúdo, segundo Bardin (2004), sendo obedecidas as seguintes fases: a) pré-análise com preparação do material com a escolha das reportagens para compor o artigo; b) exploração do material, com definição das categorias: conectividade e mobilidade; c) tratamento dos resultados, inferência e interpretação.

Uma das ações de “Free WiFi Zone” analisadas comenta que a empresa Pontofrio inaugurou em 2015 um parklet em frente à sua loja na Alameda Lorena, no Jardim Paulista, em São Paulo. Além dos tradicionais bancos, o espaço conta com estacionamento de bicicletas, conexão Wi-Fi gratuita, tomadas para carregar smartphones a partir de energia solar (ADNEWS, 2015b). Também no Cristo Redentor foi disponibilizado Wi-Fi gratuito em 2015, a partir de uma ação da Hyundai Motor (ADNEWS, 2015a).

Outra ação foi realizada pelo Uber no aeroporto do Rio de Janeiro, que inaugurou em 2016 um lounge, com bancos para relaxar, Wi-Fi gratuito e tomadas para carregar celulares e notebooks (ADNEWS, 2016c). Também são analisadas a ação que descreve os pontos de ônibus localizados próximos a universidades de São Paulo, que o Santander transformou em locais de interação e experiências com a marca (ADNEWS, 2016b), o ponto de ônibus high-tech da Otima na nona edição da Campus Party Brasil (ADNEWS, 2016a), entre outras ações de “Free WiFi Zone”.

Aponta-se como resultados que não é exagero pensar que ninguém quer, em lugar algum, ficar desconectado. Para Van Dijck (2013) a cultura da conectividade é o imperativo da atual sociedade. Segundo a pesquisadora holandesa cada vez mais nossas interações humanas passam a ser mediadas pelas redes e, com o avanço do compartilhamento e circulação de informações e conteúdos estão se configurando novas experiências de consumo.

Outro fator de relevância a observar é a possibilidade de conexão a qualquer hora, vinte e quatro horas por dia, e em qualquer lugar do mundo, independentemente do meio de acesso – dados, Wi-Fi, etc. Os dispositivos móveis, entre eles o smartphone, proporcionam esta hiperconectividade que se dá pela forma de consumo de conteúdo online, principalmente. Ou seja, mais indivíduos conectados, com diversas possibilidades de interações e consumo de conteúdo nos diferentes formatos disponíveis.

Além disso, em virtude da rotina cada vez mais em ritmo acelerado nas grandes cidades, os indivíduos passaram a usar o smartphone para resolver tarefas antes feitas no computador de casa ou pessoalmente em locais físicos. A expansão da conectividade móvel libertou as pessoas dos antigos computadores de suas residências, escolas e trabalhos, propiciando uma comunicação imediata a partir do “local dos acontecimentos”, com mobilidade física e informacional (LEMOS, 2009). A mobilidade é a tendência do momento.

Para Lemos (2009) movimentar é sempre deslocar nos espaços urbanos; a mobilidade física e informacional redimensiona e cria novos sentidos aos lugares, novas dimensões sociais, políticas e econômicas. Praticamente tudo se resolve na palma da mão. “A convergência tecnológica levou para o mais tradicional dos aparatos de comunicação [celular] as muitas novas formas de contato criadas nas últimas duas décadas, além de uma ampla gama de fontes de entretenimento” (JUVENTUDE CONECTADA 2). Enfim, neste contexto, pode-se considerar que novas e renovadas formas de conectividade e mobilidade reconfiguram as práticas de sociabilidade da juventude e, que estas impactam nas experiências e práticas socioculturais de consumo.

Palavras-chave: Experiência de consumo; Smartphone; Hiperconectividade; Mobilidade.

Referências   

BARDIN, Laurence. Análise de Conteúdo. Lisboa: Edições 70, 2004.

CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede: do conhecimento à política. In: CASTELLS, Manuel; CARDOSO, Gustavo. A Sociedade em Rede: do Conhecimento à Acção Política. Belém/PA: Imprensa Nacional, 2005. pp. 17-30.

FEATHERSTONE, Mike. Cultura de Consumo e Pós-Modernismo. São Paulo: Studio Nobel, 1995.

GSMA. The Mobile Economy 2017. GSMA HEAD OFFICE, 2017. Disponível em: <https://www.gsma.com/&gt;. Acesso em: 07 Ago. 2017.

JUVENTUDE CONECTADA 2. São Paulo: Fundação Telefônica Vivo, 2016.

LEMOS, Andre. Arte e mídia locativa no Brasil. In: A. LEMOS, & F. JOSGRILBERG, Comunicação e mobilidade: aspectos socioculturais das tecnologias móveis de comunicação no Brasil (pp. 89-108). Salvador/BA: EDUFBA, 2009.

PRODANOV, Cleber Cristiano; FREITAS, Ernani Cesar. Metodologia do Trabalho Científico: Métodos e Técnicas da Pesquisa e do Trabalho Acadêmico. Novo Hamburgo: Feevale, 2009.

TELECO. Telefonia Celular, 2017. Disponível em: <http://www.teleco.com.br&gt;. Acesso em: 24 Jul. 2017

VAN DIJCK, Jose. The Culture of Connectivity: a critical history of social media. (http://dx.doi.org/10.1093/acprof:oso/9780199970773.001.0001, Ed.) New York: Oxford University Press. 2013.

SITE ADNEWS:

REDAÇÃO ADNEWS. Cristo passará a disponibilizar Wi-Fi gratuito aos visitantes. Adnews – Tecnologia, 2015a. Disponível em: <http://adnews.com.br/tecnologia/cristo-passara-a-disponibilizar-wi-fi-gratuito-aos-visitantes.html&gt;. Acesso em: 24 Jul. 2015.

______. Pontofrio inaugura parklet conectado em SP. Adnews – Tecnologia, 2015b. Disponível em: <http://adnews.com.br/tecnologia/pontofrio-inaugura-parklet-conectado-em-sp.html&gt;. Acesso em: 27 Maio 2015.

______. Otima lança abrigo de ônibus com Wi-Fi e carregador de smartphone. Adnews – Tecnologia, 2016a. Disponível em: <http://www.adnews.com.br/tecnologia/otima-lanca-abrigo-de-onibus-com-wi-fi-e-carregador-de-smartphone&gt;. Acesso em: 29 Jan. 2016.

______. Santander cria ponto de ônibus perfeito para universitário. Adnews – Publicidade, 2016b. Disponível em: <http://adnews.com.br/publicidade/santander-cria-ponto-de-onibus-perfeito-para-universitario.html&gt;. Acesso em: 08 Set. 2016.

______. Uber inaugura lounge para recarregar as baterias em aeroporto do Rio. Adnews – Negocios, 2016c. Disponível em: <http://adnews.com.br/negocios/uber-inaugura-lounge-para-recarregar-baterias-em-aeroporto-do-rio.html >. Acesso em: 28 Jul. 2016.


[1] Considerando a população mundial de 7,3 bilhões de habitantes em julho de 2016, segundo a Cia (Central Intelligence Agency). Fonte: https://www.cia.gov, 2017.

[2] SIM – Módulo de Identificação de Assinante.

[3] Na organização para a codificação foi realizada a escolha da unidade de registro, definindo “smartphone” como tema, por amostragem não-probabilística, de amostra intencional ou tipicidade.

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