Michel Maffesoli faz conferência de abertura no Seminário Internacional de Educação

Um dos principais teóricos da pós-modernidade no mundo, o sociólogo francês e professor da Universidade Paris V, Michel Maffesoli, fez a conferência principal nesta segunda-feira (2), noite de abertura do Seminário Internacional de Educação – O Conhecimento e as Juventudes do Século XXI, que a Secretaria Estadual da Educação realiza em Porto Alegre até quarta-feira (4). Com participação do jornalista Juremir Machado da Silva como debatedor e mediação da secretária-adjunta da Seduc, Maria Eulalia Nascimento, o sociólogo francês enfatizou a diferença entre educação vertical e iniciação horizontal, reiterando que a pós-modernidade, marca do momento atual, é o encontro do arcaico com a tecnologia de ponta.

Discordando de outros teóricos, que consideram característica da contemporaneidade o individualismo, Maffesoli descreve o tribalismo contemporâneo com ênfase na convivência, na cultura do sentimento, no laço social e nas vibrações em comum para descrever a atualidade. O teórico reitera, portanto, seu conceito das tribos urbanas, das quais os jovens fazem parte. “Estamos numa época de mutação, e a juventude é quem carrega esse processo”, declarou. A mudança consiste na passagem de um modelo vertical para um modelo horizontal, que tem como mola propulsora a revolução tecnológica. A educação da modernidade privilegia o cognitivo, com uma concepção esquizofrênica do mundo, em que o elemento essencial é o cognitivo e o individualismo.

Para Maffesoli, a educação moderna, que havia antes, não é baseada em iniciação, e há uma diferença entre educação e iniciação. “A educação vai, cada vez mais, dar lugar à iniciação. Isso quer dizer que não podemos impor verticalmente um saber, mas que se deve, mais uma vez, lembrando o papel do desenvolvimento tecnológico, reconhecer a horizontalidade do conhecimento”, explica. O sociólogo destaca que a educação que ainda é vista em universidades e instituições funcionou bem durante a modernidade, ela é verticalizada, enquanto a iniciação é horizontalizada. “A iniciação tem uma ideia de acompanhamento e encontra um ponto de ajuda justamente na internet. É um paradoxo pós-moderno”, diz. “Na pós-modernidade se volta para a iniciação, mas com a utilização da internet. As instituições educacionais estão coladas a uma ideia de verticalização: eu sei algo que você não sabe e eu estou passando conhecimento para você. Na iniciação, há uma horizontalização, como na wikipédia. A internet mostra que é assim que as coisas vão funcionar na pós-modernidade, com a ideia de compartilhamento”, declara o pensador.

Sobre a crítica à sociedade individualista, Maffesoli é enfático ao destacar o papel cada vez mais importante das tribos urbanas na vida social. “A característica essencial dessas tribos é, por um lado, se concentrar no papel dos sentidos e do sensível. Por outro lado, com base no que acabo de dizer, valorizam a  vinculação, a relação, o estar junto. Trinta anos depois de ter escrito ‘O Tempo das Tribos’, confirmo minha hipótese: parece-me que o ‘relacionamento’, o laço social, é elemento essencial da pós-modernidade. O desenvolvimento tecnológico, como evidenciado pelas redes sociais, tende a reforçar a importância de viver juntos, do vínculo”, disse à plateia lotada do Salão de Atos da UFRGS.

Para o francês, a tecnologia, a internet e as redes sociais consistem no que vai criar as novas maneiras de estar junto, ou seja, uma nova estrutura, horizontal, com horizontalidade do conhecimento e inteligência coletiva, o que se reflete no ambiente educacional. Nesse novo cenário, em vez de haver uma representação do mundo, há a apresentação do que ele é. Inverte-se a lógica da educação na verticalidade, na lei do pai, que repousa sobre o poder, pela lógica da iniciação, que coloca em jogo a autoridade. “Da figura do adulto sério, racional, produtor e reprodutor, emblemática da modernidade, passamos ao Dionísio, ao mito da eterna criança, na pós-modernidade”, resume.

Juremir Machado destacou que a educação pós-moderna é também uma educação pós-produção, em que o sujeito deve sentir-se indivíduo. “O papel do professor é libertador: ele tem o desafio de abrir a possibilidade de cada aluno entrar em contato com o imaginário, com o a capacidade da transfiguração”, sintetizou o professor.

Texto: Patrícia Coelho
Edição: Redação Secom

http://www.portal.rs.gov.br/conteudo/198052/michel-maffesoli-faz-conferencia-de-abertura-no-seminario-internacional-de-educacao-

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